Segunda-feira, 20 de Junho de 2005

Uma voz.

Soltou-se uma voz no meio da noite, uma voz sem rosto, um corpo encurralado pelas sombras das árvores. Um copo de plástico vazio arrasta-se junto ao vento. Um cão perdido abatido pelo o abandono assusta-se com a própria sombra. Sem dono persegue o latir de outros cães. A voz permanece distante entregando-se a noite fazendo-se refém. A noite é longa, a procura é extensa, imensa. Algumas janelas entreabertas fecham-se com a força do vento. Nos estendais as roupas presas com molas de várias. Um canto de uma cotovia rasga a noite, assustando o cão, calando a voz. Corpos viciados encostados aos muros que outrora eram brancos agora resumem-se as solas marcadas dos sapatos. Uma dedicatória de amor numa árvore, feita de canivete dentro de um coração: " Eu e Tu, para sempre..."  Aquela árvore carrega um amor ou é tão somente um amor?


Alguém chama pelo o cão, este assustado corre desamparadamente sem destino. Aquela voz já á muito que se refugiara no silêncio das palavras sem nomes. Alguém grita por alguém... Amantes ternos beijando-se ao sabor da noite. Saltos altos de uma bela morena atravessa a rua. Vejo e revejo toda a minha fealdade. Sim eu nunca encantei ninguém... Gosto de ser mero observador do Tempo. Gosto do barulho do relógio pendurado na parede ditando o Tempo. Dando coordenadas as nossas vidas. A morena mistura-se com a noite, o cão desaparecera, o copo de plástico fora atirado pela berma com a força do vento. Os corpos viciados ali mantém-se, a voz á muito que calou-se e eu virei as costas a noite num simples gesto que ditou a minha mortalidade. Apreciei o movimento dos corpos de vidas que pernoitam até que chegue a madrugada filha de uma noite que viveu unicamente expressa ao silêncio de uma voz. A minha voz...


 


publicado por Ejamour de Carvalhais às 17:31
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4 comentários:
De Anónimo a 21 de Junho de 2005 às 22:14
Divinal...como sempre! Mil beijinhos!sussurros da lua
(http://blogfullmoon.blogs.sapo.pt/)
(mailto:sdrcarvalho@hotmail.com)


De Anónimo a 21 de Junho de 2005 às 22:08
Gostei bastante.
Abraçoterricha
(http://www.historias100nexo.blogspot.com)
(mailto:terricha@gmail.com)


De Anónimo a 21 de Junho de 2005 às 21:44
Um texto muito expressivo de penumbra e solidão. Gostei muito!Dora
(http://www.atrasdaporta.blogs.sapo.pt)
(mailto:a_dora@sapo.pt)


De Anónimo a 21 de Junho de 2005 às 08:55
As vozes da noite que se misturam e nos sussurram. Simplesmente fantástico este teu post. Beijinhos :))sylpha
(http://almanua.blogs.sapo.pt)
(mailto:sylpha@sapo.pt)


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.Autor:Ejamour de Carvalhais

Não sou poeta, nunca fui, nunca desejei sê-lo. Sou apenas amante das palavras... Nesta folha negra deposito o que a minha alma me diz ao ouvido. Voz singela, de veludo, encanto que sinto a devorar-me o corpo. Rendo-me a simplicidade sentida da minha Alma, Fé, Essência que me guia na luz do amor. (Obrigado pelas visitas e comentários...)

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