Sexta-feira, 11 de Novembro de 2005

Observando...

Um gato preto em cima de um muro numa rua deserta… Candeeiros acesos iluminando flores que mostram as suas sombras ao frio que se faz sentir. Grilos entoando serenatas, cães presos a uma corrente pedindo a liberdade.


Sombras de corpos ausentes, casas seguidas umas as outras, num estilo arquitectónico próprio, morrem as paisagens de encanto… Betão armado em vez de árvores, jardins. Imprópria vida num consumo egoísta. Aqui e ali carros estacionados. Uma mãe com uma filha de mochila as costas já no cair da tarde que se faz noite. As estrelas iluminam o rosto da pequena igualmente da mãe. O gato mia em cima do muro como dando as boas vindas. Os cães insistem no seu latir. Agora a rua mantém-se movimentada, com pessoas a pressa de chegarem as suas casas, ao conforto dos lares… Debaixo dos seus tectos, dos seus segredos, das suas intimidades. Uma criança chora no colo de uma mãe atenta a novela que passa na televisão. A criança pede atenção a mãe dá atenção a televisão… Sorrisos intermináveis, vozes invadindo a rua outrora deserta agora quase completa. O gato mantém-se ali olhando para tudo e para todos, qualquer movimento prende o olhar do gato. As folhas de uma árvore caindo numa constante movimentação. Do cimo do muro como um vigilante nocturno, atento a cada movimentação. Numa das casas alguns gritos, discussões, desentendimentos, uma criança chora como que apaziguando a guerra de palavras entre casais. O choro de uma criança simboliza um escudo, uma protecção, mas a quem neste mundo que se sente indiferente a este choro.


Cai a noite juntamente estrelas aumentando seus brilhos, o luar escondido entre as nuvens que restam de um dia chuvoso. Os cafés estão cheios, cigarros nos cinzeiros, fumos invadindo paredes. Um cão estendido no tapete sujo. Vozes de pessoas que se entregam ao vicio que lhes tira a vida lentamente. Dois amantes abraçados dentro de um carro trocando carícias ao som de uma música apaixonante. Perdidos em juras de amor. O gato preto permanece no mesmo lugar, esperando que alguém se lembre dele... Alguém chama-o, acariciando o pelo negro como a noite, o gato mia, os cães ladram, a criança deixa de chorar, terminou provavelmente as discussões. Alguém chama por alguém, a noite perde-se em si própria entregando-se aos sonhos das vidas que vivem em ruas com nomes e sem nomes.


 


publicado por Ejamour de Carvalhais às 13:44
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9 comentários:
De Anónimo a 15 de Novembro de 2005 às 13:45
Cenas do cotidiano que seu olhar soube tão bem clicar, apreendendo não somente o instante físico, como também sentimentos, emoções, sensações, de personagens tão diversos, com suas neuras, frustrações, alegrias... tudo tão bem descrito! Parabéns, amigo, por essa facilidade que você tem de falar do simples, do óbvio, com uma roupagem de diferente, que passa a ter a sofisticação registrada pelo seu atento olhar.Mily
(http://calunguinha.blogs.sapo.pt)
(mailto:calunguinha13@hotmail.com)


De Anónimo a 15 de Novembro de 2005 às 09:58
No meio da escuridão, por entre arbustos e pedras soltas, por entre pensamentos e divagações, por entre medos e ansiedades, os nossos pés caminham apressados. Todo esse percurso é desgastante e cada vez maior, quanto mais perto estamos, mais longe se torna e maior é a vontade de chegar… Quando paramos, olhamos e nada vemos, tudo é escuro, tão escuro como o percurso que fizemos…SHINE
(http://.)
(mailto:mssinet@hotmail.com)


De Anónimo a 14 de Novembro de 2005 às 23:15
Olá Jamour

Um texto com "vidas dentro" intenso - algo perturbador mas real.

Excelente.

BeijinhosBetty Branco Martins
(http://bettybrmartins.blogspot.com)
(mailto:betty_martins@net.novis.pt)


De Anónimo a 14 de Novembro de 2005 às 23:15
Olá Jamour

Um texto com "vidas dentro" intenso - algo perturbador mas real.

Excelente.

BeijinhosBetty Branco Martins
(http://bettybrmartins.blogspot.com)
(mailto:betty_martins@net.novis.pt)


De Anónimo a 14 de Novembro de 2005 às 12:27
Lindo texto. Jokas minhasimar
(http://www.falabaixinho.blogspot.com)
(mailto:isarara@sapo.pt)


De Anónimo a 13 de Novembro de 2005 às 02:28
oiee
aki estou eu em mais uma das minhas periodicas visitas..a esse blog q é show!!
abraçooRHody
(http://www.neoqeav.blogs.sapo.pt)
(mailto:euzynha_sc@hotmail.com)


De Anónimo a 12 de Novembro de 2005 às 11:16
Um observar, num texto descritivo de pequenos gestos... de atenções desviadas ou não... de vivências diárias. Gostei de ler este observar nocturno. Maria do Céu Costa
(http://www.maisquepalavras.blogs.sapo.pt)
(mailto:mariaceucosta@sapo.pt)


De Anónimo a 11 de Novembro de 2005 às 15:46
É no silêncio da noite que nós conseguimos observar tudo que nos rodeia, podemos apurar os sentidos e decifrar sons e imagens mesmo que invisiveis... Nem sempre só com os olhos se vê!! Muito bem descrito, abraços**Joaninha
(http://joaninhavoavoa.blogs.sapo.pt)
(mailto:sonia.joana_78@sapo.pt)


De Anónimo a 11 de Novembro de 2005 às 15:13
Gosto muito de te ler,juntos estamos no chocolate quente;) a minha alma tem o riso de, aves na noite, de luar escondida pela circunstância da vida.Beijinhos
MariaIIMaria
(http://vahalla.blogs.sapo.pt)
(mailto:mariam12@sapo.pt)


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.Autor:Ejamour de Carvalhais

Não sou poeta, nunca fui, nunca desejei sê-lo. Sou apenas amante das palavras... Nesta folha negra deposito o que a minha alma me diz ao ouvido. Voz singela, de veludo, encanto que sinto a devorar-me o corpo. Rendo-me a simplicidade sentida da minha Alma, Fé, Essência que me guia na luz do amor. (Obrigado pelas visitas e comentários...)

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